Particular e Universal


Poesia, em minha humilde opinião, é o que mais se aproxima da intimidade que um autor pode ter com seu leitor. A poesia fala com a alma do leitor que, quando escolhe algum livro, nem faz ideia dos sentimentos e sensações com que entrará em contato.

“Poesia Imperativa” (2018) é a reunião de 25 poesias de Alana Regina – nascida em Aracaju (SE), Mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2016), autora de “Maria Rejeitadinha e Outros Poemas” (2011) e de “Sob Encomenda: Contos” (2015) – mostrou ser uma daquelas gratas surpresas de quando você escolhe ler um livro de uma autora que ainda não conhece e, nele, descobre um mundo de força e sensibilidade. A premiada autora, vencedora do concurso de poesias do site do poeta Ulisses Tavares (setembro de 2011), destaque especial no Concurso Metacantos (2015), da editora Literacidade ainda traz nesse livro dois poemas premiados: Sintonia (um dos vencedores do Concurso Pão e Poesia 2017, de Blumenau – SC) e Parto (2º lugar no Concurso Literário da Semana de Letras 2017, da Universidade Federal do Paraná), e apresenta 58 páginas de muitas sensações. Livro de bolso. Editora Garcia. E está à venda pelo valor de R$ 10,00 no site da autora: www.alanaregina.com.

Os temas abordados nos poemas vão desde o feminino e a luta feita pelas mulheres por um mundo melhor até sentimentos sensíveis a todos, como saudade, amor e ressentimento; e, se você gosta de poemas que criam imagens fortes, há as encontradas em poemas como Estatística (O esconderijo é debaixo de nosso nariz:/ tem lágrima no fogão, tem sangue no feijão e aquele ali/ está com o cabelo na mão.) e Ressentimento (Porque da primeira vez que te esculpi/ Havia fumaça, havia fogo: sentimento/ E depois em pó te fiz cair/ Havia sombra, havia frio: ressentimento), que te mostram uma faceta difícil de lidar e tudo isso feito de forma muito particular e lírica.

Mas não somente de imagens duras são feitos os poemas em “Poesia Imperativa”. Em Deus Nu (Coloco meu abraço no teu/ O tempo é incontrolável/ Marca agora, marca amanhã, marca a essência/ O tempo é paciência/ E teus olhos um deus findável), temos uma poesia de temática mais leve, mas que nem por isso toca menos o coração do leitor e Mais um clichê sobre saudade (É ter nos olhos as fotografias/ Óculos de um passado rasurado/ É ler os rascunhos dos seus dias/ E nunca ter o exemplar finalizado), que mostra a poetisa descrevendo aquilo que muitas pessoas somente sentem, mas não sabe bem que palavras usar, e creio que isso é o que mais me encanta no gênero lírico em geral.

O livro contou com a diagramação e a arte de Aline Fortunato que, no início, causou algum estranhamento em mim, mas, à medida que se vai lendo, a diagramação começa a fazer maior sentido até o ponto de, finalmente, ver como a arte se integra com os poemas.

A poesia de Alana Regina é cheia de “passarinho”, “fumaça”, “fogo”, “cinza” (tanto cor quanto matéria), “olhos” e “tempo” dando corpo ao que é abstrato e criando uma linda peça de teatro em sua cabeça a cada novo verso, o que facilita na hora de transitar entre as várias sensações que  experimentará em contato com essa poesia que tanto é particular, desnudando o que há de íntimo na poetisa, quanto universal e atinge o coração de qualquer um.


Natan Donato
Escritor e tradutor

Particular e Universal Particular e Universal Reviewed by Karol Póss on março 26, 2018 Rating: 5

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